A família toda estava na sala, mas o silêncio pesava. Nem mesmo os três filhos mais novos de Ali Ahmed se atreviam a dar risadas enquanto brincavam ao chão. O pai tivera que se demitir do trabalho e preparava a família para partir – chegara em casa ao final da tarde bufando ordens para seus quatro rebentos e sua mulher. Entre um grito e outro, dizia baixinho que o bairro iria ser o próximo alvo da operação israelense no Norte de Gaza, que iriam todos partir à meia-noite de carona, que a repressão iria ser violenta contra aqueles que ousavam questionar o que estava posto, que não queria deixar a família em algum momento e que, Inshalá, poderiam voltar daqui alguns meses. “Chadia, arrume as malas rápido, mas em silêncio, enquanto me coloco a rezar.”
A esposa vinha transtornada nas últimas semanas. As conversas eram neste sentido mesmo: eles virão para cima babando como faraó sobre Moisés e o Mar Vermelho de agora seria o Sudeste de Gaza, num acampamento escondido por oliveiras. Nervosa, Chadia socou numa mala de pano surrada pares de roupas para as crianças. Em um saco, pôs vestes do marido e dela própria. Empilhou tudo na sala, ao lado do sofá, diante da janela. Cansada pela adrenalina, sentou-se. Esboçou um choro que fora logo interrompido pelo filho mais velho, adolescente com face de criança e responsabilidade de adulto. “Fale para seu pai esperar um pouco, já esquento água para o café.”
Omar deixara o que pudera de sua juventude para cuidar da família, ajudar o pai nas finanças e auxiliar a mãe nas lides de casa. Sabia, porém, que logo iria se casar, logo iria deixar de morar não só com os pais, mas também com os pequenos irmãos. Encontrou a mãe abatida sentada no sofá da sala. Omar sentia cheiro de pólvora e poeira – as ventanas da janela balançavam com o vento. Ele sentou-se ao lado da mãe e, logo, os “três pequenos” – como chamavam o casal de gêmeos de quatro anos e o filho de cinco – chegaram também em busca de conforto, já pressentindo o calor do medo tal qual se podia perceber em todo o bairro. Enquanto pensava no futuro, no seu futuro, Omar sentiu o pai abraçá-lo e sentar-se ao seu lado.
O silêncio voltava a pesar na sala. Ninguém falava, apenas ouviam pessoas correndo ao redor da casa – gente fugindo. Ansioso, Ali Ahmed colocou seu lenço pelo pescoço e levantou dizendo um “vamos, agora”. A esposa se ergueu em seguida e pegou os três pequenos pelas mãos, Omar fazia malabarismo para dar conta das sacolas de roupas. Antes de fechar a porta, o pai olhou mais uma vez para a sala – único cômodo da casa onde todos se sentiam confortável, onde as visitas se sentiam em casa e onde a casa se sentia cheia. Antes de chegar à esquina, ainda a alguns quarteirões de pegar a carona para o Sudeste, Chadia olhou desapontada para Ahmed: “Esqueci as roupas dos gêmeos no quarto.”
Responsável pela família, o pai não pensou duas vezes. Saiu em disparada até sua residência, abriu a porta aos chutes e enroscou as alças das sacolas em seus braços. Antes de sair, de novo, sentiu o cheiro do vazio na sala, olhou a foto de sua filha estancada na parede. Fechou os olhos involuntariamente e voou direto ao paraíso. Antes, ainda, ouviu um vizinho anglo-palestino gritar: “Israeli tank shell.”
(*) Conto escrito a partir da foto do sueco Kent Klich. A imagem foi a vencedora do World Press Photo 2010 na categoria General News. Aqui, link para a foto. [sugestão: ler o texto antes]
3 retrucos:
A tristeza retratada com excelência.
continue escrevendo, meu amigo; o caminho se mostra de uma fertilidade ímpar.
Fantástico!
Postar um comentário