“FAZIA TONELADAS DE MASSA POR MÊS PARA ALIMENTAR A MÁFIA”
Numa entrevista com sotaque italiano, Carmella, esposa de Don Vito Corleone, o Godfather [ou Poderoso Chefão], conta como era o papel de uma mãe italiana por trás da máfia
Guilherme Póvoas
Carmella Corleone não escolheu o nome de nenhum dos cinco filhos que pariu – nem mesmo de seu rebento fêmea – ao longo de seus 62 anos de vida, cerca de 40 deles como esposa de Vito. Também não escolheu o destino de cada um. Na mansão da família, no distrito de Nova York, durante a primeira metade do século 20, Carmella era respeitada. Porém, nunca ouviam sua opinião. A Mama do clã que comandou por décadas os jogos de azar, a polícia, juízes e políticos revela nesta entrevista exclusiva ao Blog do Póvoas seu papel no cotidiano da família. “Fui uma matriarca. Mas uma matriarca em silêncio”, conta ela, gesticulando no ar suas mãos e braços gordos. Assim como seu esposo, Carmella viveu sua infância e adolescência em Hell’s Kitchen, bairro de Nova York onde se juntavam os italianos que fugiam de guerras ou de algum outro perigo na terra de Dante Alighieri – a maioria deles vinha da ilha de Sicília. A seguir, Mama conta sobre a privacidade de Don Vito, o auge de sua estirpe e a descoberta repentina de uma mistura de tempero no molho para a massa de domingo que alegrava a família inteira.
Blog do Póvoas – Como era o lendário e superpoderoso Don Vito Corleone na cama?
Carmella Corleone – Bambino, esta pergunta pode lhe custar caro.
BP – E, dependendo do que a senhora disser, sua resposta pode lhe custar caro também.
CC – Morri há 50 anos e a máfia não pode matar mortos. Mas, enfim... Não tenho do que reclamar. Vito era excelente para mim em todos os aspectos referentes ao âmbito familiar. Ele repetia para seus filhos que um homem que não cuida de sua família, não é um homem por completo. Vito era completo neste sentido. Exigia de mim muitas vezes, inclusive na cama, a sua pergunta. Mas eu sempre gostei de agradá-lo. O que ele não permitia a mim, de forma alguma, jamais, era que eu me metesse ou mesmo soubesse de seus negócios. E, como os negócios de Vito tomavam boa parte de seu dia, quase o dia inteiro, eu ficava sabendo muito pouco de sua vida. Quando, na cama, eu não queria nada, eu o satisfazia no outro dia com um almoço bem preparado.
BP – Que prato a senhora costumava fazer para agradar a Don?
CC – Descobri um tempero numa propaganda de um exemplar de jornal cujo dono era amigo de Vito. Colocava este tempero no molho da massa, com bastante tomate e com uma mão bem cheia de cebola. Picava e misturava bem, já que Vito não gostava de sentir legumes e verduras em sua boca. Servia tudo bem quente, já num refratário com fettuccine. Uma delícia. Não importava quantas vezes eu fazia este prato numa mesma semana, ninguém reclamava. Então, fazia toneladas dele. Na verdade, eu fazia toneladas de massa por mês para alimentar a máfia.
BP – Sim. Mas qual era este tempero especial?
CC – Era um feito de malaguetas vermelhas, chamado de Tabasco. Este é um segredo meu, pois Vito jamais iria admitir que se usasse, em sua casa, pela sua mulher, um tempero mexicano. Colocava um pouco de jalapenho também. Era picante, forte. Vito chegava a coçar o bigode depois de cada garfada. Para tirar a ardência da boca, ele sempre comia uma laranja depois destas refeições, claro.
BP – Como a senhora encarava aquele entra-e-sai de homens poderosos, com maletas de couro e sobretudo preto, no escritório de seu marido? Estes tipos de audiência eram muito comuns na residência dos Corleone?
CC – Quando Vito ficou mais velho, mais próximo da morte [ele faleceu em 14 de agosto de 1955], e até depois de terem tentado lhe assassinar, estes tipos de reuniões se acentuaram no escritório lá de casa, capicce? Da cozinha, eu assistia chegarem homens de vários jeitos, e pela postura de cada um já sabia o que procuravam lá. Alguns chegavam a entrar no escritório com a cabeça erguida, nariz empinado, sabe? Mas saíam do escritório quase aos prantos. Outros, italianos humildes, chegavam para pedir alguma coisa, algum favor, ou até mesmo desculpas. Algumas vezes saíam radiantes pelo consentimento de Don Vito. Recordo que estas reuniões eram rápidas, curtas. Ninguém ficava lá mais do que 30, 40 minutos. Poucos demoraram mais que isso. Uma vez, após uma reunião de cerca de três horas, um homem com chapéu preto saiu de lá apressado. Como este longo encontro no escritório fez com que Vito se atrasasse para o jantar, perguntei a ele o motivo. Ele disse: ‘Este era Joe Kennedy.’
BP – O pai do presidente assassinado?
CC – Exato, bambino. Parece que ele fabricava bebidas alcoólicas de forma clandestina, capicce? E Vito entrava na jogada distribuindo este produto. Mas esta história toda eu lia nos jornais, e quando tinha acesso. O que se passava naquela sala, Dio mio, nunca vou saber. Nunca tentei saber também. A máfia lá em casa funcionava como um fantasma, não se discutia, não se verificava pela ciência, mas sabia que ela estava por lá. Vito jamais tratou de seus negócios à mesa, por mais pressa que tivesse em discutir ou dar ordens a Mike, Santino ou Hagen [filhos]. Em nenhum outro momento de lazer meu marido trouxe estes assuntos ao aberto, mesmo que a única que estivesse por perto fosse eu. O jogo, a venda de bebida, os cassinos que comandavam em Las Vegas eram como uma iminência parda lá em casa – sabia-se que existiam, eram estes esquemas que pagavam as contas, mas jamais se discutiu fora das quatro paredes do escritório.
BP – Senhora Carmella, como é depois da morte para os sicilianos mafiosos, que navegaram pelo Mediterrâneo, cruzaram oceano, para vingar na terra da liberdade?
CC – Caro, melhor que em vida, melhor que em vida. E antes de ir embora aceite estes biscoitos que fiz. Não, não recuse. Aceite, bambino. E leve uns para sua casa, para sua esposa, para sua família.
BP – Prego.